Psicoterapia e Dependência Química

     O uso de drogas é um dos maiores problemas enfrentados pela sociedade atual, atingindo todas as culturas em diferentes camadas sociais. Esse consumo, por si só, causa grandes danos à comunidade, fortalecendo a criminalidade, a violência, a corrupção, o poder paralelo aos governos e outros tantos de gravidade próxima. 
    O uso de substâncias já faz parte da sociedade há milênios, existem achados de jarras com resíduos de vinho que datam de 5400 a.C. (Sielski, 1999). Porém nunca houve um consumo tão elevado e diversificado de tóxicos como os dias de hoje. Os meios de comunicação, quase que diariamente, noticiam fatos relacionados com o consumo de substância psicoativas, parece-nos que estamos enfrentando uma epidemia dessa prática.
    Devido à sua grande abrangência, o assunto tem bastante repercussão social, e, por conseqüência, uma constante presença nos meios de comunicação. Nos telejornais ou nas próprias novelas, o tema, geralmente, está presente. Entretanto, muitas vezes, o assunto é tratado de forma sensacionalista pela mídia, ou supervalorizado por grupos de músicos para obter "status". 
    É fundamental, no início do tratamento, salientar ao usuário que o uso de drogas é um problema de saúde mental e física, que apresenta uma série de prejuízos e comprometimentos devido ao seu consumo, sendo considerada como uma doença crônica, como diabetes, entre outras (Leite, 2001).
    Dentro das famílias, em geral, o tema é abordado como sendo uma falha no caráter, que são pessoas sem moral. Esta postura não contribui em nada para o tratamento, pois os familiares crêem que "é só querer, que ele consegue". Via de regra não há uma avaliação correta da dimensão que a droga ocupa na vida do indivíduo. Essa linha de pensamento esta centrada na moralidade, algo que dominava o pensamento na área da saúde até poucos anos atrás. Nesta perspectiva, o adicto é uma pessoa que não tem "fibra moral" para resistir à tentação.
   A Organização Mundial da Saúde apresenta uma definição clara e abrangente sobre a questão, compreendendo o uso de drogas como:
um estado psíquico e físico resultante da interação entre um organismo e um produto. Essa interação caracteriza-se por modificações do comportamento e por outras reações que obrigam fortemente o usuário a tomar o produto contínuo ou periodicamente, com o fim de encontrar os efeitos psíquicos e, às vezes, evitar o mal-estar da privação (Bergeret e Leblanc, 1991, p. 63).
    O problema é bastante abrangente e causa prejuízo em todas as instâncias do Estado. Afeta os indivíduos e seus familiares, os vizinhos e a comunidade em que vive. Segundo a Secretaria Nacional Antidrogas - SENAD (Leite, 2001), os custos da dependência incluem gastos de toda a ordem, pessoais, familiares, do sistema de saúde, do sistema judicial, dos serviços policiais, sendo um peso importante no orçamento da nação. Tratar a dependência significa investir para a redução desses gastos.
  Estudos sérios realizados indicam um crescente consumo de drogas, principalmente, entre as crianças e os adolescentes, além de identificar outros dados alarmantes sobre a temática. Jaber e André (2002, p. 2) confirmam esta problemática afirmando "que pelo menos dois terços da população americana acima de 14 anos consomem álcool e 7% dos adultos podem ser considerados bebedores pesados". O Brasil ocupa o terceiro lugar mundial em consumo e produção de bebidas alcoólicas, sendo o maior produtor de bebidas destiladas.
É fundamental mobilizar a sociedade para combater este problema que aflige, direta ou indiretamente, todas as famílias. Algumas medidas facilitam esta conscientização. Procurar informações e auxílio nos órgãos responsáveis, em instituições ou centros especializados no assunto são formas de obter uma condição de vida melhor para todos.
Psicoterapia com dependentes químicos
    Devido ao seu caráter crônico e recidivante o problema é grave e envolve múltiplos fatores em sua etiologia. Fatores psicológicos, sociais e fisiológicos influenciam no papel da produção do comportamento do usuário. Por isso, o enfoque do tratamento também deve ser eclético, tentando auxiliar o indivíduo em suas inúmeras áreas de atuação. Os cuidados advêm das diferentes áreas do saber, como, a psicologia, a psiquiatria, a enfermagem, a assistência social, a educação física, entre outras. Diferentes ferramentas terapêuticas devem integram este apoio, tais como os grupos de auto-ajuda como os Narcóticos Anônimos e as comunidades terapêuticas.
    É importante ressaltar que o usuário, via de regra, não procura o tratamento por estar convencido de que esta lhe traga algum prejuízo. Geralmente, quando o usuário o faz, é por pressões familiares ou devido aos acúmulos ao longo da vida de problemas e prejuízos causados pelo consumo de substâncias. A SENAD (Leite, 2001) relata que os principais motivadores da busca do serviço de assistência para uso de drogas são as complicações orgânicas, ocupacionais, interpessoais, legais, financeiras ou psiquiátricas.
    A questão fundamental para discutirmos esse assunto é saber por que tratar. O tratamento de usuários, como conhecemos hoje em dia, já possui um longo percurso, que foi da punição com agressões físicas ao entendimento de vários processos cognitivos da patologia. Scott e Mark (1994) afirmam que, nos últimos 10 anos, o papel dos fatores cognitivos na adicção tem sido visto com crescente interesse. Os modelos antigos da doença compreendiam os dependentes como sofrendo de uma doença que limitava seu controle sobre suas próprias ações. Este modelo está sendo substituído por um modelo de autocontrole, que salienta a contribuição do indivíduo através de seus pensamentos e ações na sua dependência das drogas.
    Marlatt e Gordon (1993) afirmam que as intervenções terapêuticas eficazes devem diferenciar entre a abordagem inicial da mudança comportamental e sua manutenção ao longo do tempo, acomodando ambos os componentes, para que isto resulte em uma mudança pessoal duradoura. Ter consciência dessa simples diferença no tratamento é de fundamental importância, pois na grande maioria dos casos o não reconhecimento dessa divisão gera atraso na terapia, perda de tempo e erro de foco terapêutico.
   Segundo Ramos e Bertolote (1997) "para a maioria das pessoas é relativamente fácil mudar temporariamente qualquer comportamento indesejado. A manutenção dessa mudança, no entanto, é tarefa bem mais complexa e difícil" (p.173).
       Por isso, o treinamento de habilidades deve ser uma prática constante dentro da terapia, respeitando a necessidade e capacidade de cada indivíduo.
     A seguir são expostos alguns fatores importantes que devem ser abordados na psicoterapia com usuários de droga, como o início da terapia, a família do usuário, técnicas motivacionais, prevenção da recaída e o projeto de vida.
Sobre o trabalho do psicólogo:
      Realizar a avaliação detalhada do caso consiste em uma tarefa importante do psicólogo no início do tratamento. Este processo torna o trabalho centrado nos problemas do usuário, pois em geral, ele tende a focalizá-lo em outras pessoas. Jaber e André (2002) afirmam que, para que o tratamento seja bem sucedido, a primeira coisa que um profissional de saúde deve ter em mente é a importância de se saber identificar e abordar adequadamente o cliente.
    Ramos e Bertolote (1997) afirmam que a correta identificação dos problemas e a realização do diagnóstico multiaxial dos pacientes representam, não só uma importante contribuição à nosografia do drogadicto, como também um elemento fundamental para a planificação de estratégias de intervenção preventivas, terapêuticas e reabilitadoras. Além disso, permite a sua mais eficiente monitorização e avaliação.
   A história clínica do paciente dependente deve conter algumas informações essenciais. As drogas previas e atualmente utilizadas, se há consumo simultâneo de álcool, quais as vias de uso atuais e anteriores e a quantidade consumida comumente. As informações sobre o consumo devem ser recolhidas paralelamente à história de vida do paciente, sugerindo determinado contexto que contribuíram para o uso de drogas. Outro fator de identificação é a combinação de fatores da vida do sujeito que facilitaram ou mesmo propiciaram o início do consumo, sua progressão, o surgimento dos prejuízos relacionados, a busca de tratamento (Leite, 2001).
   Se o psicólogo e/ou o paciente não sabem onde estão, torna-se difícil planejar como chegar ao local idealizado. Algumas vezes, as pessoas deixam de mudar porque não reconhecem sua situação atual. A avaliação e o conhecimento claro sobre a situação presente é um elemento essencial para o processo de mudança. 
    É importante ressaltar que as taxas de comorbidade no abuso de drogas ou dependência química e outros transtornos mentais, têm se mostrado elevadas, sendo comumente diagnosticados nos centros de tratamento (Pulcherio e Bicca, 2002).
    Outro fator que o terapeuta deve estar atento no início do tratamento é estabelecer um bom vínculo com o cliente, para que a confiança possa crescer gradativamente. Existem inúmeros fatores que auxiliam para que este processo ocorra, como, empatia, cordialidade, respeito, escuta reflexiva, atenção aos detalhes do relato do cliente e competência em avaliar. O entendimento claro da sintomatologia do cliente, saber os jargões que o seu grupo utiliza, entender seus prazeres, completam o modelo para conseguir uma vinculação que gere bons frutos terapêuticos.
    O contrato deve ser detalhado e bem explicado, para não suscitar nenhum mal entendido, tanto para o paciente, quanto para a família. Avaliar e conscientizar o paciente sobre as reais expectativas e crenças em relação ao tratamento, pois a probabilidade de recaída é aumentada se o indivíduo mantém expectativas supervalorizadas quanto à facilidade de se livrar das drogas. Segundo Marlatt e Gordon (1993) a recaída acontece devido a "sedução da gratificação imediata da droga que se torna a figura dominante na área perceptiva, enquanto a realidade das conseqüências totais do ato é negligenciada" (p.36).
    Durante as combinações iniciais, o psicoterapeuta pode sugerir ao usuário que ele se integre a um grupo de mútua-ajuda (A.A. ou N.A.). Estes grupos são agentes operacionais na recuperação e reinserção social dos dependentes de drogas, atuando ainda na reestruturação familiar (NAR-ANON) e na prevenção à dependência. São reuniões que se caracterizam pela informalidade e têm como propósito a troca de experiências. São constituídos por leigos e voluntários, não possuindo qualquer ônus para a comunidade e a sociedade em geral.
    O apoio e orientação à família também fazem parte do tratamento, sendo estes também incentivados a procurar ajuda nos grupos especializados.
    
Referências Bibliográficas:
Bergeret, J; Leblanc, J. (1991). Toxicomanias, uma visão multidisciplinar. Porto Alegre: Artes Médicas.
Jaber, J. André, C. (2002). Alcoolismo. Rio de Janeiro: Revinter.
Leite, M. (2001). Aspectos Básicos do Tratamento da Síndrome de Dependência de Substâncias Psicoativas,(2ed.). Brasília: Presidência da República, Gabinete de Segurança Institucional, Secretaria Nacional Antidrogas.
Marlatt, G. Gordon, J. (1993). Prevenção da Recaída.Porto Alegre: Artmed.
Pulcherio, G. Bicca, C. (2002). Avaliação dos transtornos comórbidos. In: Pulcherio, G. Bicca, C. Silva, F.A. Álcool, outras drogas informação. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Ramos, P. Bertolote, J. (1997). Alcoolismo Hoje. 3ed. Porto Alegre: Artes Médicas.
Sielski, F. (1999). Filhos que usam drogas: guias para os pais. Curitiba: Adrenalina.